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Porque é que ondas pequenas e clean são mais importantes do que ondas grandes quando estamos a aprender a surfar


Se nunca surfaste antes, há uma boa probabilidade de teres a mesma reação que muitos dos nossos hóspedes.


Quando seguimos pela Avenida Marginal em direção a Carcavelos, há um primeiro momento em que conseguimos ver bem o mar a partir da estrada. Muitas vezes, alguém olha pela janela da carrinha e diz qualquer coisa como: “As ondas parecem mesmo pequenas...” ou “Está completamente flat!”


Às vezes, nota-se imediatamente alguma desilusão.


O Bica, um dos nossos professores e antigo Head Coach, tem uma resposta simples sempre que isto acontece: “Se no final da aula não se divertiram ou acham que não valeu a pena, venham falar comigo.” Às vezes até acrescenta que devolvemos o dinheiro se a sessão realmente não tiver valido a pena.


Já se tornou um clássico da Surf Cascais e os nossos professores continuam a usar versões desta frase hoje em dia.


A razão é simples. É muito fácil julgar uma sessão de surf a partir da praia e o tamanho das ondas é normalmente a primeira coisa em que reparamos. No entanto, quando a aula acaba, a conversa costuma ser sobre algo completamente diferente.




Ondas maiores não significam necessariamente melhor surf


É compreensível associarmos ondas maiores a melhor surf. Os filmes de surf, as competições e as redes sociais mostram naturalmente o lado mais espetacular deste desporto. Ondas maiores parecem mais entusiasmantes e desafiantes, por isso é lógico assumir que também vão proporcionar uma melhor sessão de surf.


Para surfistas principiantes e intermédios, muitas vezes não é assim.


O surf é um desporto técnico e uma grande parte da progressão acontece através da repetição. Cada onda é mais uma oportunidade para trabalhar a remada, o posicionamento, a escolha das ondas, o timing, o take-off, a postura e a distribuição do peso. À medida que evoluímos, começamos a acrescentar outros elementos, como gerar velocidade, escolher a linha e virar a prancha com maior controlo.


É por isso que uma onda limpa de 0,5 m, ou até mais pequena, pode ser muito mais útil do que uma onda desorganizada de 1,5 m.


Em condições limpas e previsíveis, temos tempo para perceber o que está a acontecer. Podemos cometer um erro, receber feedback do professor e tentar corrigi-lo na onda seguinte. Quando as condições se tornam demasiado exigentes para o nosso nível, uma parte muito maior da energia é gasta a remar, passar a rebentação, recuperar das quedas e simplesmente tentar estar no sítio certo.


Continuamos a surfar, claro, mas não estamos necessariamente a aprender mais.





A onda certa depende do surfista


Esta é uma das razões pelas quais não escolhemos simplesmente a praia com as maiores ondas.

A força e direção do vento, a direção da ondulação, o período, a maré e os bancos de areia podem mudar completamente a qualidade de um spot de surf de um dia para o outro. Mas o nível do grupo é tão importante como a previsão.


Um surfista de Nível 1, que ainda está a aprender as bases e a ganhar confiança nas espumas, precisa de condições muito diferentes de um surfista de Nível 2, que está a progredir para as ondas verdes, a aprender a chegar ao outside, a posicionar-se no lineup e a melhorar a leitura das ondas. Um surfista independente de Nível 3 vai naturalmente precisar de condições diferentes e, muitas vezes, mais desafiantes para continuar a evoluir.


Às vezes, a escolha certa é Carcavelos. Outras vezes é o Guincho ou outra praia da nossa costa. E, por vezes, significa escolher deliberadamente ondas mais pequenas quando existem ondas maiores a quebrar noutro local.


O objetivo é simplesmente adaptar as condições aos surfistas que vão estar dentro de água nesse dia.


Isto também significa tentar maximizar o número de boas oportunidades que cada surfista tem. O surf tem uma taxa de repetição relativamente baixa quando comparado com muitos outros desportos. Podemos passar vários minutos a remar e a posicionar-nos para uma onda que vamos surfar durante apenas alguns segundos, por isso cada boa oportunidade é particularmente valiosa quando estamos a aprender.


Em condições limpas e consistentes, um aluno pode apanhar uma onda, receber uma correção e ter pouco depois outra oportunidade para a aplicar. Ao longo de uma aula, essas pequenas correções começam a fazer a diferença.


A confiança também faz parte da progressão


Escolher as condições certas não é apenas uma questão de técnica. A confiança tem uma enorme influência na forma como surfamos.


Um surfista que se sente confortável com as condições normalmente vai remar com mais força, comprometer-se mais com o take-off e ter espaço mental suficiente para pensar naquilo que está a tentar melhorar. Quando alguém se sente ultrapassado pelas condições, começa a hesitar e grande parte da sua atenção passa simplesmente para lidar com o mar.

Isso não significa evitar condições difíceis. Aprender a surfar também significa ficarmos gradualmente mais confortáveis em situações que inicialmente parecem desafiantes. O importante é introduzir esse desafio no momento certo.


Isto também aparece de forma consistente naquilo que os nossos hóspedes dizem depois das aulas. Nos seus reviews, falam em progredir mais depressa do que esperavam, em passar das dificuldades com as bases para apanhar ondas verdes e em ganhar cada vez mais confiança dentro de água. A paciência, o feedback individual e o acompanhamento técnico são também temas que aparecem repetidamente.


Aquilo de que raramente falam é do tamanho das ondas.



De volta à carrinha


E isto leva-nos novamente àquela primeira viagem pela Marginal.


Alguém vê Carcavelos e acha que as ondas parecem demasiado pequenas. O Bica faz a sua promessa habitual, todos vestem os fatos e vão surfar.


Umas horas mais tarde, a conversa costuma ser diferente.


As pessoas falam da primeira onda verde que apanharam, de um take-off que finalmente correu bem, de uma onda surpreendentemente longa, de uma queda que fez toda a gente rir ou simplesmente do quanto se divertiram.


Isto não significa que ondas mais pequenas sejam sempre melhores. À medida que os surfistas se tornam mais independentes, condições diferentes e mais desafiantes tornam-se uma parte importante da progressão. Mais tamanho e potência acabam por ensinar competências que ondas pequenas simplesmente não conseguem ensinar.



Mas, para surfistas principiantes e intermédios, ondas limpas e consistentes oferecem muitas vezes algo bastante mais valioso do que tamanho: mais oportunidades para surfar, feedback mais útil e a confiança necessária para continuar a evoluir.

Por isso, da próxima vez que chegares à praia e as ondas parecerem mais pequenas do que esperavas, dá-lhes uma oportunidade antes de decidires se estão boas ou más.


A oferta do Bica continua de pé.


Julga-as depois da aula.

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